Marleuza e Mari são amigas muito íntimas. Estão sempre dialogando sobre as mazelas do cotidiano e como se aproxima a data em que Marleuza ficará "mais experiente", a criatura anda muito pensativa, naqueles momentos de reflexão que os astrólogos denominam "inferno astral".
-Ô inferninho cruel! Diz Marleuza.
-Mari pergunta: por que tanto pessimismo Marleuza?
-Sei lá Mari! Acho que a vida não tem sido generosa comigo.
-Preste atenção no que fala Marleuza! Feche os olhos e tente rememorar os anos passados. Consegue perceber o crescimento, as conquistas e vitórias que teve até hoje?
Por alguns instantes, Marleuza distancia o olhar e volta no tempo...
42 anos atrás, numa fazenda onde morava com a família na condição de agregados, no Vale do São Patrício em Goiás. Ela tinha 7 anos. Duas horas de caminhada sob sol escaldante para chegar à escola rural onde cursava a segunda série do ensino, naquele tempo, chamado primário. No mês se setembro, os fazendeiros colocavam fogo nas pastagens à beira da estrada, tornando o clima ainda mais árido e seco, e as cigarras faziam um barulho ensurdecedor com seu canto. Pior foi o dia em que torceu o pé ao correr para chegar primeiro embaixo do pé de pequi e colher os frutos caídos antes da irmã e da colega de escola. Além de ter que continuar o caminho de ida, restava o percurso de retorno no final da tarde, quase pulando num pé só...por mais duas horas!
40 anos atrás, em Ceres - GO. A família se desentendera com o dono da fazenda e voltara à cidade de origem. Em condições paupérrimas! Marleuza, então com 9 anos, carregava trouxas enormes de roupas na cabeça para a mãe lavar, além de ajudar a cuidar dos irmãos mais novos e frequentar a escola, onde ganhava todo o material escolar que não podia comprar, graças ao seu desempenho e boas notas. Era "catarrenta", "piolhenta" e muitas vezes foi alvo das campanhas de saúde e higiene promovidas pela escola, tendo que ficar diante dos coleguinhas de sala, dizendo frases decoradas e tendo também os cabelos lavados na instituição de ensino, após a aplicação de "Neocid", inseticida usado como piretroide naquele tempo...
1972. 11 anos tinha Marleuza, que entra na Capital de Goiás em cima da carroceria de madeira de uma caminhonete "Toyota" de um fazendeiro das redondezas de Ceres, chamado "Tonico Toqueiro". Além de terem implorado à Polícia Rodoviária Estadual para prosseguirem viagem, pois a lei não permitia a condução de pessoas (mais os poucos móveis e um cachorro, claro!) sobre a carroceria, seguiram destino completamente inverso ao planejado, porque o ponto de referência da casa do tio para onde iam em Goiânia, era a torre de transmissão de televisão da Serrinha. O motorista que não conhecia a cidade enxergou primeiro a torre do Morro do Mendanha. Aí dá para imaginar...
1974. Sobrado de um Coronel reformado, esposo de uma famosa escritora goiana. Marleuza era empregada doméstica. 13 anos tinha então. Menina-moça, corpo em desenvolvimento; não passava despercebida. Começava a desabrochar a mulher. Ficava a semana no emprego e só ia para casa no domingo pela manhã, quando revia os familiares, pelos quais chorava de saudades. A mãe era a lavadeira da família, Passava por lá uma vez na semana. O Coronel era cego, mas parecia visualizar a formosura da menina, pela qual abria a carteira, dizendo que ela escolhesse o quanto quisesse para permitir que ele lhe fizesse uma carícia em suas partes íntimas. Um assédio vergonhoso, que a jovem adolescente, por falta do diálogo com a mãe, não tinha coragem de contar e sofria calada, descendo correndo as escadas do sobrado para dele fugir, e mesmo com todas as necessidades pelas quais passava, a menina jamais aceitou qualquer centavo ganho daquela forma condenável para ela. Mesmo que o único calçado que tivesse fosse uma "havaiana" com calcanhar comido pelo uso e com a tira arrebentada presa embaixo por um grampo de cabelos.
-Marleuza, acorda! Onde você está mulher?
-Mari, eu cresci e não percebi! Ainda vive dentro de mim a menina que teve uma infância muito pobre, que sofreu muito para adquirir um pouco de cultura! Ainda chora dentro de mim, a menina humilhada na escola pela carência material extrema! Ainda se amedronta dentro de mim a adolescente que sonhava com o príncipe encantado, onde "coronéis" entravam nos sonhos para obrigá-la despertar. Vive dentro de mim, essa menina-adolescente que ainda ousa sonhar com príncipes e vê seus sonhos destruídos não por “coronéis”, mas por falsas palavras doces e promessas que não se cumprem! Como estar feliz dentro de um mundo que parece não ter sido feito para esta menina-moça que se nega a encarar a vida com a dureza que lhe é própria?
-Marleuza, minha querida, faça de todas as cenas gravadas no seu subconsciente motivos para sorrir hoje! Você é uma vencedora! Pense no quanto é importante na vida de muitas pessoas. Observe à sua volta! Você mora num bairro nobre da Capital; é a casa que conquistou! Deus confiou a você um casal de filhos maravilhosos, inclusive, sua filha passou no vestibular em duas universidades públicas, sendo motivo de muito orgulho! O trabalho não é o que você almeja, mas sei que luta para conseguir progredir. Você caminhou tanto, contudo, olha seu hoje com os olhos da criança e da adolescente que teve os sonhos interrompidos! Você idealiza seus “príncipes” e quando percebe que eles não mais existem, seu castelo desaba! Acorde Marleuza, para que você volte a sonhar, porém, com os pés fincados na realidade! Construa o seu agora, com base nas experiências adquiridas. Você verá que é possível ser feliz. Construa um céu particular dentro de você e assim posso lhe garantir que no próximo ano, quando chegar seu aniversário, o tal "inferno astral" passará longe. Acredite, você pode! Permita que a menina-adolescente se vá e que no lugar dela, surja a mulher que realmente você é. E não precisa perder a pureza nem o olhar sincero com o qual enxerga seus semelhantes. É isso que faz de você uma pessoa especial. Ainda não entendeu?
-Obrigado Mari. Sei que você é minha "amiga gêmea".
-Feliz aniversário Marleuza. Eu estarei sempre "grudada" em você. O seu progresso será o meu. As suas vitórias serão as minhas. Sua felicidade é motivo para eu ser feliz. Já pensou na responsabilidade?
“Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido...” (Ivan Lins)
“As águas vão rolar, não vou chorar
Se por acaso eu morrer do coração
É sinal que amei demais
Mas enquanto estou viva e cheia de graça
Talvez ainda faça (talvez não, certeza! com licença Rita Lee!)
Um monte de gente feliz.”
É onde me escondo para revelar, através das palavras, pensamentos e coisas do coração.
sábado, 8 de maio de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
VEJA ALÉM
Quando seus olhos pousarem sobre mim
Procure ver a cor da minha alma
Salte sobre o exterior e busque a essência bem guardada.
Sentirá perfume de alfazema e lavanda
Verá que o tons são claros, simples, iluminados.
Quando seus olhos pousarem sobre mim
Seja condescendente com meus erros
Salte sobre a imperfeição e busque a leveza que se esconde.
Sentirá ambiente tranquilo e acolhedor
Verá que as músicas são belas, calmas, angelicais.
Quando seus olhos pousarem sobre mim
Procure ver além do que pareço ser
Salte sobre a capa material e busque a beleza no invisível.
Sentirá um coração pulsando forte e vibrante
Verá que o amor é forte, verdadeiro, imenso.
Quando seus olhos pousarem sobre mim
Veja-me com a mesma clareza com a qual o enxergo
Que o seu rosto perceba as verdades do meu
Que a sua sintonia seja igual a minha
Que a minha metade se encaixe na sua
Que o seu corpo se torne parte do meu
Que sua alma se identifique com a minha
Que saibamos fazer de duas vidas, apenas uma.
Procure ver a cor da minha alma
Salte sobre o exterior e busque a essência bem guardada.
Sentirá perfume de alfazema e lavanda
Verá que o tons são claros, simples, iluminados.
Quando seus olhos pousarem sobre mim
Seja condescendente com meus erros
Salte sobre a imperfeição e busque a leveza que se esconde.
Sentirá ambiente tranquilo e acolhedor
Verá que as músicas são belas, calmas, angelicais.
Quando seus olhos pousarem sobre mim
Procure ver além do que pareço ser
Salte sobre a capa material e busque a beleza no invisível.
Sentirá um coração pulsando forte e vibrante
Verá que o amor é forte, verdadeiro, imenso.
Quando seus olhos pousarem sobre mim
Veja-me com a mesma clareza com a qual o enxergo
Que o seu rosto perceba as verdades do meu
Que a sua sintonia seja igual a minha
Que a minha metade se encaixe na sua
Que o seu corpo se torne parte do meu
Que sua alma se identifique com a minha
Que saibamos fazer de duas vidas, apenas uma.
sábado, 10 de abril de 2010
CRESCER RIMA COM SOFRER?
Hoje, na minha aula de musculação o professor imprimiu um ritmo pesado ao treino. Para um determinado exercício, exigiu que eu fizesse dez repetições, respirasse somente por cinco segundos e repetisse mais dez, assim sucessivamente, até um número de cinco séries. De início foi fácil, porque a carga colocada no aparelho era leve, mas na última série, ele ficou ao lado contando as repetições, estimulando para que eu não interrompesse antes do término, tal o estado de exaustão que eu demonstrava.
Durante a execução dos exercícios comecei a me questionar: O que faz com que uma pessoa se proponha a suar, perder o fôlego e sentir dores musculares fortíssimas, enquanto lá fora faz um lindo sábado de sol? Que força movia todas as outras pessoas que também lá se encontravam? Não sei as demais, porém eu imaginava crescendo cada músculo que exercitava, e quanto mais doía, mais eu sentia que o esforço seria compensado posteriormente com um corpo mais rijo e saudável, livre do sedentarismo que enferruja o organismo em todos os aspectos.
Já pensou que com nossa alma acontece algo parecido, mas que ao contrário do que ocorre no preparo físico, nós não demonstramos a mesma coragem e persistência? Já reparou como reclamamos das dores que acometem nossa alma quando o comodismo espiritual se instala? Já notou como não conseguimos imaginar nossa alma sendo trabalhada, modificada e purificada através das tribulações íntimas que sofremos diariamente?
Tudo normal, tudo legal, tudo humano! Vivemos no mundo da matéria, onde é válido o que é visto, o que pode ser notado a olho nu. Nossa visão espiritual é tão míope e as cirurgias capazes de promover a correção ainda são de difícil aceitação. E mais difícil ainda é admitir que, na maioria das vezes, preferimos tatear às cegas, porque abrir as venezianas da alma, pode trazer a claridade que fere a visão acostumada com o aconchego da penumbra. E perder esse aconchego pode significar ter que encarar o dia de sol, que no final de tudo, nada mais é do que vivenciar as experiências que trarão dor e consequentemente, a reforma íntima.
E por que para acrescentarmos virtudes à alma temos que sofrer?
Não necessariamente; nós escolhemos a forma. É que como na vida física, o mundo cada vez mais moderno e cheio de comodidades nos leva ao sedentarismo que adoece, na esfera espiritual as frivolidades ocupam quase que totalmente nossos campos de interesses, não restando outra alternativa para nos fortalecermos, a não ser pelo esforço e dor. E haja suor! E hajam lágrimas!
Tirar um pouquinho do nosso tempo para nos dedicarmos a alguma atividade que nos faça sentir mais leves custa tão pouco! Nosso ato de caridade pode estar numa palavra de consolo, num sorriso gentil, na ofensa esquecida, no amor doado... E tantas outras coisas , às vezes sem um pingo de suor e nem uma lágrima derramada! Contudo, quando se sua e chora, o momento é sempre de contentamento íntimo que expande a alma de qualquer ser. E ao contrário do corpo físico que ao ser trabalhado pesa, parecendo estar mais fixo ao chão, a alma fortalecida torna-se etérea e transcende dimensões! Isso não é coisa de Deus?
"Ninguém é digno da sabedoria se não usar suas lágrimas para cultivá-la."
(Augusto Cury)
quinta-feira, 25 de março de 2010
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE PERDÃO
Hoje acordei meio sem gás. O dia anterior tinha sido "porreta" e mesmo tendo dormido bem, faltava aquela energia que traz um desperar alegre e saudável. Melhor assumir: Eu estava meio Down!
Quando é folga na escala do trabalho, gosto de ir a academia pela manhã; cumpro logo a obrigação com meu físico e passo o dia com aquela sensação gostosa de dever cumprido. Então lá fui eu, com minha roupinha mais colorida, cabelos lavados, cheirosinha, com batom e rímel (este último à prova d'água e consequentemente de suor, claro!). Sou fraca não, neném! O mundo me filma a todo instante e a qualquer momento, posso ser catapultada para um Big Brother qualquer da vida! E quando o astral puxa para baixo, há que se investir no visual, dar aquele disfarçadinha básica.
Como o título desta nossa conversa já é uma paráfrase ao título da música de Geraldo Vandré, de conteúdo que estimulava as lutas revolucionárias da juventude nos anos 60, agora vou parafrasear Belchior: "Deixando essas futilidades de lado", confesso ter iniciado o treinamento muscular com certa morosidade. Meu professor tudo percebeu e até se fez confidente. Em dias assim, ele pega mais leve, dando, além do apoio físico, também o moral. A música ambiente era interpretada pelo grupo Titãs e o letra soava: "Quem espera que a vida seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão"... Entre um alteres e outro, eu racionalizava os últimos acontecimentos da minha vidinha pacata e comecei a perceber o quanto me culpo pelos sofrimentos e acontecimentos desagradáveis. Sempre procuro acertar, dar o melhor de mim e quando levo "porrada" na cara, atribuo-me os rótulos de burra, idiota, imatura, enfim, assumo as qualificações da loura caricata das anedotas tão populares. E aí, "lá vem dor no peito", como diz a letra de uma música da Alcione. Em meio a essas divagações, olhei no espelho à minha frente e um lindo sorriso cativante me foi dado por um jovem que ainda não conhecia naquela academia que frequento a algum tempo. Eu me movimentava, mudava de exercício e quando me deparava com a figura simpática do menino, recebia mais sorrisos. Angelicais, posso assim dizer! Aquela expressão amigável do goroto, de repente foi mudando meu astral e eu digeria as emoções ruins vividas, começando a pensar em como seria bom se nós conseguíssemos praticar o perdão em sentido amplo. É, naquele momento, naquele lugar insólito, onde tudo respira condicionamentos físicos eu comecei a fortalecer minha alma! A cada inspiração eu pensava, perdoo, e a cada expiração eu jogava para fora as raivas, as dores, as tristezas, as decepções. E o perdão mais importante foi aquele que direcionei a mim mesma, pois sei que sou humana, faço escolhas erradas, deixo-me contaminar por sentimentos não tão nobres. Permito que o orgulho seja fator determinante nas minhas ações... Ufa, como sou humana!
Num dado momento do treino, eu o garoto dividíamos um aparelho e ao ficarmos frente a frente, mais um sorriso me foi dado de presente. Aí, como sou atrevida ao extremo e na minha idade "pagar mico" é expressão que desconheço, perguntei: Qual é o seu nome? Ele respondeu: Lucas. Eu acrescentei: Só queria saber se o significado do seu nome condiz com seu sorriso! E ele, mais uma vez, sorriu, iluminando o ambinte e minha alma por completo. Chegando em casa, fui imediatamente atrás da informação que saciaria minha curiosidade e lá constatei: LUCAS: vem do Latim, que quer dizer: LUMINOSO, BRILHANTE. Estava explicado. Era um anjo ali plantado para estimular os insights que me questionaram e fizerem com que eu compreeendesse a grande importância de praticar o perdão. À partir desse momento, senti que vale acreditar cada dia mais no ser humano que me rodeia. Sou parte dessa diversidade de múltiplas facetas e valores! Através do convívio, um dia serei sábia o suficiente para aceitar, sem mágoas, os sentimentos e importância que o outro resolver me atribuir. Sei que nas relações afetivas, em todos os aspectos, a reciprocidade não é regra. O verdadeiro amor consiste na arte de permitir que o outro tenha por mim a afeição que for capaz de sentir. No campo profissional, ninguém é obrigado a reconhecer os valores que acredito ter. Contudo, nos dois casos, uma única regra deve prevalecer: Ao nos sentirmos injustiçados, praticarmos o perdão, na medida em que o entendimento de cada um determinar. Lembrei-me então que ao sair da academia, os Titãs ainda cantavam:
"Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe alegria
E a dor que traz no coração..." (Epitáfio)
As pessoas como elas são
Cada um sabe alegria
E a dor que traz no coração..." (Epitáfio)
domingo, 21 de março de 2010
ENFRENTANDO POROROCAS
"Pororoca é o fenômeno produzido pelo encontro das correntes de maré com as correntes fluviais, em geral em desembocaduras e baías onde existe grande variação entre as marés alta e baixa." ( leia mais em www.portalamazonia.globo.com).
É... lendo um pouco sobre esse fenômeno natural pelo qual passam as águas, percebi que nós, como parte dessa natureza viva também vivemos nossos dias de pororoca. E como! Pela definição dada, qualifico-me como um rio de água doce, deslizando tranquilo sobre seu leito, porém inquieto, sabendo que nas desembocaduras, o mar sempre aguarda para os encontros inevitáveis.
No campo profissional, sempre fui assim: Não temo o mar. E não é questão de ter nariz empinado, de não respeitar hierarquia : é questão de lutar pela cidadania e pelos direitos que acredito serem meus. Nessas situações, as pororocas são violentíssimas! Já sofri punições desde o tempo em que atuava na área da Iniciativa Privada e hoje, como Servidora Pública é que percebi como os embates são frequentes. No Serviço Público, não é preciso fases específicas para que grandes marés se formem. Basta o servidor não baixar a cabeça àquele que acredita ser oceano para que ondas gigantescas se levantem. E eu, com a doçura que me é peculiar, vou avançando mar adentro e quando percebo sou arremessada ruidosamente pelas forças destruidoras, oriundas do orgulho daqueles que detêm o poder - e nem sempre capacidade administrativa - para onde acreditam ser meu lugar, onde acreditam que devo reconhecer como meu curso, placidamente.
Há um comentário que parece folclore no serviço púbico: dizem que quando um servidor sai de férias, corre o risco de, no retorno, não ter mais sua vaga à disposição. Quando eu disse parece, é porque comprovei esse processo pessoalmente. Aliás, nem esperaram que eu gozasse os merecidos trinta dias: na primeira semana, recebi em minha casa o comunicado, via telefone, da transferência de unidade e quando me recusei, por saber que, psicologicamente, não tinha condições de assumir o novo posto a mim destinado, fui designada a uma unidade longínqua, onde dependo de três ônibus coletivos para lá chegar. Na anterior, precisava de apenas um. A pororoca foi o prêmio recebido por um ano de bons serviços prestados, por uma servidora que ia muito além das suas funções de Assistente Administrativa, com alegria e encantamento do primeiro contrato no serviço público, e praticamente, todas as notas dez nas avaliações do seu Estágio Probatório.
Talvez a minha doçura aparente passe até a impressão de que sou muito passiva e que ceda ao ataque das furiosas ondas sem lutar. Não é bem assim. Diferentemente delas, em mim há um cérebro pensante que analisa as possibilidades, as perdas, os ganhos, sendo necessário, muitas vezes, passar a idéia de que o mar venceu o rio. Usando o senso analítico, me recomponho sempre, talvez perdendo um pouco aquela doçura inicial, mas a força surge exatamente dessa transformação, onde o raciocínio supera em muito a truculência. Tudo tem seu tempo. As marés sempre baixam. Sendo propício, os rios até mudam seu curso. E é sabido por qualquer ser humano com um mínimo de instrução, que para haver equilíbrio biológico, o mar necessita do rio, tanto quanto o rio precisa do mar.
quinta-feira, 11 de março de 2010
ENCAIXANDO-SE NO SEU QUADRADO
"Não é da natureza do amor forçar um relacionamento, mas é da natureza do amor abrir o caminho." (William P. Young no livro A Cabana)
Existem algumas Leis Naturais que regem o universo e por mais que tentemos protelar seu cumprimento, não há como fugir. Um dia elas haverão de se cumprir. Está gravado no subconsciente de cada um e caminhar acatando essas leis é obrigação na escalada de evolução pela qual deve passar o ser humano. No complexo perfeito projetado pelo Criador, todas se interligam, mas algumas delas têm uma intimidade maior quando somos chamados a meditar sobre os rumos atuais do homem no que tange aos relacionamentos afetivos: A Lei da Reprodução e a Lei da Conservação.
Nascemos com a missão de viver em pares, construir famílias, procriar. Na sociedade moderna, esse conceito tem sido interpretado de forma bastante divergente, ou seja, a descaracterização do modelo de casais, na forma tradicional, através do casamento ou de união aceitável no padrão estabelecido pelo meio social em que convivemos, é, para muitos, coisa do passado, fora de moda. Ultrapassado.
Recentemente concluí a leitura do livro "A Cabana" do qual assimilei e concordei plenamente com a frase que usei como clichê no início deste texto. Nele, num diálogo entre Jesus e o personagem principal, Ele esclarece que todos somos livres para aceitar que Deus habite em nós. E por mais que fujamos, adiemos, protelemos esse encontro, um dia desejaremos estar cara a cara com Ele. Desejaremos profundamente que essa união magnífica se concretize.
Análoga é a situação em relação ao amor humano. Todos querem se acasalar, todos desejam ardentemente a convivência amorosa de um parceiro! Mas a maioria pára nesse quesito. Quando se inicia a o romance e os indivíduos percebem que precisam empreender mudanças de vida para que o projeto venha a ser bem sucedido, batem em retirada! Alguns nem se propõem a começar. Nunca estão prontos para abrir mão, para dividir. Declaram-se despreparados para construir uma parceria e viver um no outro, tal qual deve ser a experiência no amor Divino.
Inúmeras são as alegações de ambos os sexos. - Mulher independente assusta os homens, dizem alguns. - Homem imaturo decepciona as mulheres, é consenso. Não é interessante esse aspecto contraditório do "bicho-homem"? Enquanto a mulher cresce, assumindo maiores responsabilidades sociais, profissionais, familiares e toma as rédeas do seu destino, o homem enfraquece e busca no isolamento afetivo afogar suas angústias de macho, procurando nas relações banais, amenizar o vazio que só um relacionamento sólido, cuja base é o amor, será capaz de preencher completamente.
Quanto à mulher, suas expectativas em relação ao parceiro ideal têm diminuído com o passar dos anos. Um dos fatores que ainda contribui nessa mudança, é o fato da população feminina ser muito superior à masculina. O "cardápio" à disposição do homem é tão farto e ele mostra disposição para experimentar todos os "pratos". Infelizmente muitas mulheres ainda se propõem alimentar os prazeres do sexo oposto. Não vai aqui nenhuma crítica feminista! É a realidade vivida por uma mulher que também não consegue manter-se à parte nessa questão, dada a escassez de parceiros disponíveis, com requisitos básicos e dispostos a abrir suas vidas à uniões afetivas que satisfaçam. Enquanto os índices mostram a ascensão intelectual do sexo feminino, no campo moral ela despenca ao tentar equiparar-se ao homem, participando dessas experiências, de certa forma degradantes, sofrendo maiores consequências no aspecto emocional dada a sua sensibilidade nata.
Claro que não podemos generalizar e hipocrisia é palavra que procuro eliminar do meu vocabulário. Não estou acima do bem e do mal (aliás, ultimamente tenho vivido um verdadeiro "cabo de guerra"!). Embora flutue nesse universo frenético, onde o que tem importado é a quantidade de relacionamentos e não a qualidade, acredito ainda que usando de olhar minucioso, garimpando com cuidado, sem pressa, oportunidades podem surgir. A opinião geral é que homem e mulher estão frente a frente mas não se enxergam por haverem muitos atrativos ilusórios ofuscando seus olhares. Por outro lado, acreditando que somos movidos pelas Leis Naturais, construir uma união feliz ao lado de um parceiro do bem é a linha de chegada para qualquer um de nós. Imagine um tabuleiro de xadrez onde as peças se encaixem naturalmente em cada casa! É isso aí!
terça-feira, 9 de março de 2010
QUEM DITA É O CORAÇÃO
O tempo foi tão longo que esqueceste do azul que era seu
Nesse tempo ficaram perdidos os beijos que não me destes, as flores que não afertaste
Em cada tarde passada, meu coração distanciou-se na esperança de encontrar o seu
Em cada manhã ele retornou exausto pela procura inglória da noite
Em cada esquina meu olhar dobrava aflito na certeza de verte-te
E em cada lágrima rolada pelo desencontro ia um pouquinho de mim.
Não sei se seu tempo foi longo
Não sei se meu tempo foi curto
Não sei avaliar a que distância te encontras de mim
Mas minh'alma insiste pra que eu grite agora
NUNCA ME AFASTEI DE TI.
P.s. Um amigo de longa data e muito querido me envia emails e a cor da fonte que utiliza é sempre azul. Neste dia, voltando das férias, escreveu-e, mas usou a cor preta. Inspirou-me na escrita das palavras simples.
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