Cada dia que amanheço refaço minha mala.
Parto para mais um dia, consciente que num deles, farei aquela misteriosa viagem para fora deste planeta, para muitos, uma escola de almas. A vida é breve e o tempo que me é dado, quase nada significa se comparado à eternidade. Preciso circular com fluidez e dinamismo, aproveitando ao máximo as oportunidades que surgem.
Consequentemente, preciso estar leve.
Então, toda manhã, desfaço-me de tudo que seja supérfluo.
Não ocupo mala com sensações desagradáveis. Só carrego o que usei e me caiu bem, entretanto, não economizo em novidades, leves como plumas, sempre acompanhadas de muita alegria e grande curiosidade.
Recuso-me a transportar coisas que não irão servir a mim, nem aos outros.
Por isso, esvazio minha mala das mágoas que porventura senti, das lembranças que me fazem chorar, das culpas pelos erros cometidos. Se estou matriculada nesta escola é porque pouco sei, ou nada sei, como declarou um dia o célebre filósofo. Por outro lado, embora reconheça minha ignorância diante dos enigmas do universo, há em mim um princípio de sabedoria implantado. Nato. Não posso concluir esta jornada com a cabeça oca e mãos vazias.
Por conseguinte, a cada manhã faço escolhas, decidindo a qualidade do que levo comigo. Essas escolhas edificam meu conteúdo interior. É minha bagagem, que espero um dia, quando chegar a hora do enigmático embarque, estar leve o suficiente para não tê-la retida por excesso de peso.